Roger Waters: Entrevista sobre o THE WALL de 1979

Esta entrevista é de 1979, ano do lançamento do The Wall, o terceiro álbum mais vendido no EUA, e um dos dez mais em todo mundo.

Entrevista concedida ao Friday Rock Show, da BBC Radio 1. Era transmitido das 22h até 0h nas sextas-feiras de 1978 até 1993.

Tommy Vance: De onde veio a ideia do álbum “The Wall’?
Roger Waters: Bem, a ideia para “The Wall’ veio de dez anos de turnês, shows de rock, eu acho, particularmente do últimos anos, em 75 até 77, quando tocamos para plateias muito grandes, algumas das pessoas que estavam lá eram nosso antigo público, que iam para nos ver tocando, mas a maioria estava lá só para beber, em grandes estádios, e consequentemente fazer shows se tornou, cada vez mais, uma experiência alienante. Eu me tornei muito consciente de um muro entre nós e nosso público, e então esse álbum começou como uma expressão desses sentimentos.

TV: Mas eu acho que é um pouco mais profundo que isso, porque o álbum mostra a história da vida de um personagem.
RW: A história veio se desenvolvendo desde então, isso foi há dois anos atrás (1977). Eu comecei a escrever sobre a situação de um show, de fato o álbum começa com um show, e então existem “flashbacks” que vão traçando a história de um personagem, se você preferir, Pink, ou quem quer que ele seja. Mas inicialmente ele se baseou apenas em shows que estavam se tornando horríveis.

TV: Quando você diz “horríveis” você quer dizer que realmente não gostaria de estar lá?
RW: Sim, isso mesmo, particularmente porque as pessoas que estão mais atentas ao show são as 20 ou 30 fileiras da frente. E em grandes situações, quando você está usando o que é eufemisticamente chamado de “Festival seating”, eles tendem a ficar juntos, pulando como loucos, é muito difícil tocar nessa situação, com pessoas gritando e berrando e atirando coisas e machucando as outras pessoas, e quebrando coisas, e soltando fogos e, você sabe?
TV: Uh-huh.
RW: Quero dizer, estão se divertindo, mas é uma droga tentar tocar quando tudo isso está acontecendo. Mas, ao mesmo tempo eu senti que essa situação foi criada por nós mesmos por causa de nossa ambição, você sabe, se você toca em lugares muito grandes… a única razão para tocar em lugares muito grandes é para fazer dinheiro.

TV: Mas seguramente, em seu caso, não seria econômico, ou possível, tocar em lugares pequenos.
RW: Bem, não seria possível quando fizermos esse espetáculo, porque senão íamos ter prejuízo com o show, mas nesses shows que estou falando; a turnê de 75 na Europa e Inglaterra e a turnê de 77 da Inglaterra, Europa e América também, nós estávamos fazendo dinheiro, nós ganhamos muito dinheiro nessas turnês, porque nós estávamos tocando em lugares grandes.

TV: O que você gostaria que o público fizesse, como você gostaria que eles reagissem à sua música?
RW: Eu realmente fico feliz se eles fizerem o que quer que sintam que seja necessário porque eles estão somente expressando sua resposta para o que isso parece, de uma certa maneira estou dizendo que eles estão certos…
TV: Hum.
RW: Há uma ideia, ou houve uma ideia por muitos anos, que isso era uma experiência maravilhosa, e que havia um bom contato entre o público e os músicos que estavam no palco, e eu acho que isso não é verdade, eu acho que houveram muitos casos que isso foi realmente uma experiência bastante alienante.

TV: Para o público?
RW: Para todo mundo. 

TV: Já tem dois anos e meio desde que você lançou um álbum, e eu acho que as pessoas vão se interessar em saber quanto tempo você levou para desenvolver esse álbum.

RW: Certo, nós fizemos uma turnê e terminou, eu acho, em julho ou agosto de 77, e quando nós terminamos essa turnê no outono desse ano, foi quando eu comecei a escrever isso. Eu levei um ano, não, até o próximo julho, trabalhando sozinho, então eu tinha uma demo, coisa de 90 minutos, que eu toquei para o resto da banda e então começamos a trabalhar nele juntos, em outubro ou novembro desse… Outubro de 78, nós começamos a trabalhar no álbum. 

TV: E vocês acabaram a gravação, eu acho, em novembro desse ano? (1979)
RW: Sim. Nós não começamos a gravar até o próximo ano, bem, até abril desse ano, mas nós estávamos ensaiando e emprovisando e obviamente re-escrevendo muita coisa. Então foi um longo tempo mas nós sempre tendemos a trabalhar bem devagar, porque, é difícil.

[In the Flesh] [The Thin Ice]

TV: A primeira música é ‘In the Flesh’?
RW: Sim.

TV: Isto, de fato, mostra o que o personagem se tornou.
RW: Sim.

TV: No fim.
RW: Não poderia ter colocado isso melhor! É uma referência à nossa turnê de 77 que se chamava ‘In the Flesh’.

TV: E então você tem uma faixa chamada ‘Thin Ice’.
RW: Sim.

TV: Agora, é o acho, estamos no comecinho da vida do personagem, que se chama Pink…

RW: Sim.

TV: …O começo da vida de Pink?
RW: Sim, absolutamente, sim. De fato, no fim de ‘In the Flesh’ você ouve alguém gritando “roll the sound effects” da-da-da, e, você ouve sons de bombardeios, então isso dá a você alguma indicação do que está acontecendo. No show isso vai ficar muito mais óbvio. Então isso é um flashback, nos começamos contando a história. Em termos a história é sobre minha geração.

TV: A guerra?
RW: Sim. War-babies. Mas pode ser sobre qualquer pessoa que foi deixada por outra, se você preferir.

TV: Isso aconteceu com você?
RW: Sim, meu pai foi morto na guerra.

[Another Brick in the Wall part 1] [The happiest days of our lifes] [Another brick in the Wall part 2] 

TV: E então vem ‘Another brick in the wall, part 1’. Que é de fato sobre o pai que se foi?
RW: Sim.

TV: Acho que o pai, no álbum, “voou pelo oceano…”
RW: Sim.

TV: …Agora, a pessoa que está ouvindo deve supor que ele foi para algum outro lugar.
RW: Sim, bem, pode ser, você vê, isso trabalha em vários níveis, não precisa ser sobre a guerra, eu acho que isso deve funcionar realmente para minha geração. O pai é também… Eu também sou o pai. Você sabe, pessoas que deixam suas famílias para trabalhar, não que eu deixe minha família para trabalhar, mas muitas pessoas fazem e tem feito, então não pretende ser uma simples história sobre, você sabe, alguém sendo morto na guerra ou crescendo e indo à escola, etc, etc, etc mas sobre ser deixado, mais geralmente.

TV: ‘The Happiest Days of our Life’ é, uma completa condenação, como eu a vejo, como a ouvi no álbum, da vida escolar de alguém.
RW: Um. Minha vida escolar foi muito parecida com isso. Oh, foi horrível, foi realmente terrível. Quando ouço as pessoas hoje lamentando para que volte a escola secundária, escutar isso me deixa realmente mal. Porque eu fui para uma escola secundária para garotos e embora… Eu quero deixar claro que alguns dos homens que ensinavam (era uma escola para garotos) alguns dos homens que ensinavam eram caras muito legais, você sabe, eu não… isso não é para ser uma condenação à todos professores de todos os lugares, mas os maus professores podem fazer pessoas. E haviam alguns na minha escola que eram incrivelmente ruins e tratavam as crianças muito mal, só colocando elas pra baixo, colocando pra baixo, você sabe, todo o tempo. Nunca encorajando elas a fazerem coisas, sem tentar realmente deixar elas interessadas em qualquer coisa, apenas tentando mantê-las quietas e imóveis, e esmagavam eles dentro da forma certa, então eles iriam para a universidade e “fariam bem”.

[Mother] [Goodbye Blue Sky] 

TV: E sobre a faixa ‘Mother’? Que tipo de mãe é essa mãe?
RW: Super protetoras; Como a maioria das mães são. Se você pode fazer alguma acusação às mães, é que elas tendem a proteger demais suas crianças. Demais e por muito tempo. Isso é tudo. Isso não é um retrato de minha mãe, embora alguma coisa, você sabe, uma ou duas coisas servem para ela também e tenho certeza que para as mães de muitas outras pessoas. É engraçado, muitas pessoas reconhecem isso e de fato, uma mulher que conheci outro dia, que ouviu o álbum, me chamou e disse que ela era assim. E ela disse que ouvir essa música a fez sentir culpada, ela tem três filhos, e eu não precisei dizer que ela particularmente era superprotetora com suas crianças. E fiquei interessado, você sabe, ela é uma mulher com mais ou menos a minha idade, e eu achei interessante que isso tocou ela. Eu fiquei feliz por isso, você sabe, se você pode… se isso significa…

TV: E então vem a faixa ‘Goodbye Blue Sky’. O que está realmente acontecendo nesse estágio da vida de Pink?
RW: Desde que gravamos o álbum eu realmente não tentei pensar claramente, de minha maneira, sobre isso, mas eu sei que essa parte é muito confusa. Eu acho que a melhor maneira de descrever isso, é como um resumo do lado um. (esse é o começo do lado dois) E você pode olhar para ‘Goodbye Blue Sky’ como um resumo do lado um. Então, sim, está relembrando a infância de alguém e então ficando pronto para o resto da vida.

[Empty Spaces] [Young Lust] 

TV: E então vem a faixa ‘What shall we do now.’ A suposição aqui deve ser quando o adulto que está surgindo…
RW: Está certo. Agora essa é a música que não está no álbum. É muito boa! De fato, acho que vamos tocá-la no show. Mas é muito longa, e esse lado estava muito longo, e tinha muito disso, ela é basicamente a mesma coisa que ‘Empty Spaces’, e nós tivemos que por ‘Empty Spaces’ no lugar de ‘What shall we do now’.

TV: Porque sem essas palavras ouvidas no álbum…
RW: Sim, ficaria sem senso.

TV: Bem, não que ficaria sem senso, só significaria que há um período na vida de Pink que não foi indicado. Eu quero dizer que ele pularia direto do resumo do lado um para ‘Young Lust’.
RW: Certo. Não, ela não pula direto, ele vai para ‘Empty Spaces’ e as letras são bem parecidas com as quatro primeiras linhas de ‘What shall we do now?’. Mas o que é realmente diferente e a lista: “Devemos comprar uma nova guitarra, dirigir carros mais poderosos, trabalhar durante a noite”, você sabe, e todas essas coisas.

TV: “Raramente dormir, tratar pessoas como bichos de estimação”

RW: Certo. É apenas sobre maneiras que as pessoas se protegem do isolamento de outras se tornando obsessiva com a ideia de outras pessoas. Se a ideia é de que é bom dirigir…Tenha um carro poderoso, você sabe, ou se você está obcecado com a ideia de ser vegetariano…adotando o critério de outra para você. Sem considerar eles de uma posição de realmente ser você mesmo; nesse nível a história é extremamente simples, eu espero que em outros níveis menos poupáveis, coisas mais eficientes virão. Eu acho que funciona bem em um show onde você apenas ouve as palavras, mas você provavelmente não vai ouvir todas as palavras pela maneira que os shows de rock são produzidos.
TV: Mas elas obviamente vão estar lá se você precisar delas.
RW: Sim, foi por isso que nós não entramos em pânico tentando mudar as capas internas e coisas, eu acho importante que elas estejam lá, então as pessoas poderão lê-las. Eu acho que é igualmente importante que as pessoas saibam porque elas estão lá, caso contrário, eu acredito que isso vai ser terrivelmente confundido.

TV: E então vem a faixa que se chama ‘Young Lust’. Como Pink é a estrela do rock, e Roger Waters o escritor, já houve uma faze de “jovem luxuria” em sua vida?
RW: Bem, sim, eu suponho, de fato, sim isso aconteceu comigo, eu fui assim. Mas eu nunca deveria ter dito isso, você vê, eu nunca deveria ter vindo com nada como isso, eu estava muito amedrontado. Quando escrevi essa música ‘Young Lust’ as palavras eram bem diferentes, era sobre deixar a escola e ficar vagando pela cidade atrás de filmes pornô e livrarias sujas e estar muito interessado em sexo, mas nunca realmente ser capaz de se envolver por ter sido muito amedrontado de fato. Agora é completamente diferente, essa é uma das funções de nós todos trabalhando juntos no disco, particularmente David Gilmour e Bob Ezrin, nós co-produzimos o álbum juntos, nós três co-produzimos ele. ‘Young Lust’ é um número de imitação. Ela me lembra muito uma canção que gravamos anos e anos atrás, chamada ‘The Nile Song’, é muito parecida, Dave canta de uma maneira muito parecida. Eu acho que ele canta ‘Young Lust’ maravilhosamente, eu amo os vocais. Mas pretende ser uma imitação de qualquer jovem banda de rock and roll que está na estrada.
RW: Eu acho que e muito boa; Eu amo a telefonista dela, acho que é maravilhosa. Ela não sabe o que está acontecendo, a maneira que ela atende… Lógico que foi um pouco editado, mas a maneira que ela atende, tudo como “suponho que há outra pessoa com sua esposa”, você sabe, acho surpreendente, ela realmente fez isso da maneira certa. Ela é magnífica! 

[One of My Turns] 

TV: E então vem ‘One of my turns’.
RW: Sim, então a ideia é de que pulamos, de alguma maneira, muitos anos, de ‘Goodby blue sky’ através de ‘What shall we do now’, que não existe mais no disco, e ‘Empty Spaces para ‘Young Lust’ que é como um show; nós pulamos para dentro de um show de rock, em algum lugar da carreira de nosso herói. E ‘One of my Turns’ é para ser sua resposta à toda a agressão de sua vida e de nunca ter tido nada com ninguém, apesar de ser casado, bem, ele não tem nada junto, mas ele está casado, e ele teve um… ele está se separando de sua esposa, e por isso ele leva outra garota para seu quarto de hotel.

TV: E ele realmente é, “ele tem tudo mas não tem nada”.
RW: Ele tem isso agora, ele está definitivamente um pouco “yipee” agora, e ‘One of my Turns’ é apenas, você sabe, ele vindo e não conseguindo se relacionar com essa garota também, é por isso que ele fica só mudando o canal da tv, eles entram no quarto e ela começa a falar de todas as coisas que ele tem e tudo o que ele faz é ficar sentado lá mudando o canal da tv, e ele não vai conversar com ela.

[Don’t leave me now] [Another brick in the wall part 3] [Goodbye Cruel World] 

TV: E então vem um período em ‘Don’t Leave me now’, onde ele percebe o estado em que ele está, ele continua se sentindo, se você preferir, agressivo, completamente deprimido, completamente paranoico, e muito só, tão só a ponto de pensar em suicídio.
RW: Sim, bem, nem tanto…mas sim é uma canção muito depressiva. Eu a amo! Eu realmente gosto dela!

TV: Há essa linha na música “para te deixar em farrapos num sábado à noite”.
RW: Sim.

TV: Agora há, eu não sei como dizer isso, mas isso realmente está no fundo, se você preferir, da depravação privada.
RW: Bem muitos homens e mulheres se envolvem uns com os outros por muitas razões erradas, e eles são muito agressivos uns com os outros, e causam ao outro muitos danos. Eu, claro, nunca bati em uma mulher, Tommy, e espero que nunca faça isso, mas muitas pessoas fazem, e muitas mulheres agridem homens também, há muita violência em relações que geralmente não estão funcionando. Eu acho que essa é obviamente uma canção extremamente sínica, eu não me sinto assim sobre casamento agora.

TV: Mas já se sentiu?
RW: Isso é uma das coisas difíceis por ter um pequeno percentual autobiográfico, e por ser tudo baseado em minhas próprias experiências, mas não é minha autobiografia, apesar de ser baseado em minhas próprias experiências, como qualquer escritor, alguma coisa sou eu e o resto são coisas que eu observei.

TV: Mas também tem muita verdade nisso.
RW: Bem, espero que sim, se você olha e vê as coisas e se elas são verdadeiras, então esse é o tipo de coisa, se você está interessado em escrever canções ou livros ou poemas ou qualquer outra coisa, então esse é o tipo de coisa que você tem que tentar escrever, porque essas são as coisas que são interessantes, e essas são as coisas que vão tocar as pessoas, o que está escrito é tudo, você sabe. Algumas pessoas tem a necessidade de escrever seus sentimentos na esperança que outras pessoas vão reconhecê-los, e tirar alguma coisa deles, se é um sentimento de afinidade, ou se faz eles felizes, ou qualquer coisa, eles vão tirar alguma coisa disso.

TV: ‘Another brick in the wall part 3’. “Eu não preciso de braços em volta de mim”, ele parece estar numa posição que ele não está mais tão confuso, em outras palavras, ele é mais confidente. Então vem a faixa ‘Goodbye Cruel World’. O que está acontecendo aqui?
RW: Bem, o que está acontecendo é: do começo de ‘One of my turns’ quando a porta abre, lá, até o final do lado três o cenário é um quarto de hotel americano, a groupie sai no fim de ‘One of my turns’ e então ‘Don’t leave me now’ ele canta pra qualquer um, não é para ele e realmente não é para sua esposa, é para qualquer pessoa, se você preferir é de homem para mulher de uma certa maneira, desse tipo de sentimento, é uma canção muito culposa também. De qualquer maneira, no final disso, lá está ele no seu quarto de hotel com sua TV, e então tem aquela simbólica quebra de TV, e então ele ressurge um pouco daquele tipo de violência, e então ele canta alto dizendo “Tudo que você é, é apenas mais um tijolo no muro”, eu não preciso de ninguém, então ele está mesmo convicto de que seu isolamento é uma coisa desejada, isso é tudo.

[Goodbye Cruel World] 

TV: Mas como ele está nesse momento, quando ele diz “Adeus mundo cruel”?
RW: Isso é ele ficando catatônico se você preferir, é o final e ele vai voltar e ficar enrolando e ele não vai se mover. É isso, ele já teve demais, esse é o fim.  No show, nós trabalhamos num mecanismo muito claro, então nós poderemos completar a parte do meio do muro, construindo sucessivamente, então deixamos sobrando um buraco triangular que nós poderemos completar pouco a pouco. Mais do que preenchendo até o topo, vai ter esse enorme muro em volta do público, e nós vamos estar preenchendo esse buraco. O último tijolo é encaixado quando ele canta “goodbye” no fim da canção. Essa é a conclusão do muro. Esse muro vem sendo construído, em meu caso, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ou no caso de qualquer outra pessoa, quando eles se preocupam em pensar nisso, se eles se sentem isolados ou incomodados por outras pessoas, você sabe, é para quando você quiser.

TV: Então podemos dizer que nesse momento ele descobriu exatamente onde ele está, e o muro está completo, em outras palavras seu caráter, através de todas as experiências que ele teve, está finalmente em seus olhos, foi concluído.

RW: Ele não está em lugar nenhum.

[Hey You] 

TV: E então vem o começo do lado três, que começa com uma música diferente da que está na capa.
RW: Sim. Bob Ezrin me chamou e disse “eu ouvi o lado três e ele não tá legal”. De fato eu acho que também me sentia um pouco encomodado sobre esse lado. Eu pensei sobre isso e em poucos minutos eu percebi que ‘Hey You’ poderia conceitualmente ficar em qualquer lugar, e esse lado ficaria muito melhor se nós colocásse-mos ela no começo, e nós colocariamos no meio da cena teatral, com o cara no quarto de hotel, numa tentativa de reestabelecer contato com o mundo lá fora, que é o que ‘Hey You’ significa. Foi por isso que as letras foram impressas no lugar errado, foi porque essa decisão foi tomada tarde demais; eu devo explicar esse ponto, a razão pela qual as decisões foram tomadas tão tarde foi porque nós tínhamos prometido a muitas pessoas há muito tempo atrás que nós deveríamos acabar esse disco no começo de novembro, e nós quisemos cumprir a promessa.

TV: Bem, o cara agora está atrás do muro…
RW: Sim, ele está atrás do muro simbólico e está trancado no quarto do hotel, com a janela quebrada que tem vista para a auto-estrada.

TV: E agora o que ele vai fazer com sua vida?
RW: Bem, sem sua mente, porque ‘Hey You’ é um grito para o resto do mundo, você sabe, dizendo “Hey, isso não está certo”, e além disso toma um olhar narrativo para isso… Dave canta os dois primeiros versos e então vem uma passagem instrumental e então tem um pedaço que é “mas era tudo fantasia”, que eu canto, que é uma narração da coisa; “O muro era muito alto como você pode ver, não tem problema se ele tentar ele nunca vai ficar livre, e os vermes comeram seu cérebro”. “Os vermes”. Essa é a primeira referência aos vermes… os vermes tem bem menos coisa a ver com a peça do que tinham há um ano atrás; há um ano atrás eles tinham muito a ver com a peça, se você preferir, eles eram minha representação simbólica da decadência. Porque a ideia básica da coisa toda é que se você se isola você decai. Então no fim de ‘Hey You’ ele faz um apelo por ajuda, mas é tarde demais.

TV: Porque ele está atrás do muro?
RW: Sim, e de qualquer maneira, ele está apenas cantando para ele mesmo, você sabe, não é bom pedir por ajuda se você está sentado num quarto de hotel sozinho, e dizendo isso só para você mesmo. Todos nós, tenho certeza disso cada vez mais, temos sentenças formadas em nossa mente que gostaríamos de dízer para outras pessoas, mas nós não fazemos isso, você sabe, bem, não tem porque, isso não ajuda ninguém, isso é apenas um jogo que você está jogando com você mesmo.

[Is there anybody out there?] [Nobody Home] [Vera] [Bring the Boys Back Home] 

TV: E então vem a faixa ‘Nobody home’ a primeira linha é “eu tenho um livreto preto com meus poemas”.
RW: Sim, exatamente, precisamente, sim, depois de “Is there anybody out there” que é mesmo uma peça mau humorada. 

TV: Então ele está sentado em seu quarto com um tipo de sentimento de que precisa de ajuda, mas ele não sabe mesmo como conseguir.
RW: Ele realmente não quer isso.

TV: Ele não quer mesmo?

RW: Sim, bem, uma parte dele quer, mas parte dele que você conhece, a parte que faz seus braços e pernas, e tudo funcionar, não quer nada além de ficar sentado lá assistindo TV. 

TV: Mas nessa música ele fala de todas as coisas que tem: “o permanente obrigatório de Hendrix…” todas as coisas que nós sabemos que são bem reais no mundo do Rock and roll. 
RW: Há algumas linhas aqui que voltam ao tempo de Syd Barrett, em parte é sobre todos os tipos de pessoa que conheci, mas Syd foi a única pessoa que conheci que usava elásticos para manter suas botas juntas, que é de onde essa linha vem, e de fato “o permanente obrigatório de Hendrix” você tem que voltar dez anos e você vai entender tudo que isso significa.

TV: Quando ele diz ‘Estou perdendo as raízes” bem no final…
RW: Bem, ele está ficando preparado para estabelecer contato, se você preferir, como ele começa, e as coisas começam a fazer algum senso. Se você preferir, ele está ficando pronto aqui para começar a voltar para o lado um.

TV: Depois vem a música ‘Vera’, que é bem “Segunda Guerra mundial”… ter nascido e ter sido criado nessa época.
RW: É como se ela fosse trazida pelo fato de um filme de guerra passando na TV.

TV: Que pode ser ouvido?
RW: Sem mencionar nenhum título ou nome! Que pode ser ouvido, e isso traz ele de volta, e precede, a música que é para mim a canção central de todo o álbum, ‘Bring the Boys back home’.

TV: Por que?
RW: Bem, porque em parte é sobre não deixar pessoas irem e serem mortas em guerras, mas também é em parte sobre não permitir rock and roll, ou fazer carros, ou estar envolvido com pesquisas biológica ou qualquer coisa que qualquer pessoas possa fazer, não deixando essas coisas se tornarem muito importantes e nem um “divertido jogo de garotos”, porque isso se torna mais importante do que amigos, esposas, filhos, outras pessoas.

[Comfortably Numb]

TV: Então fisiologicamente qual o estágio do personagem Pink na música ‘Comfortably Numb’?
RW: Depois de ‘Bring the boys Back Home’ tem uma pequena peça onde é usado o “loop” de uma fita; a voz do professor é ouvida de novo e você pode sentir a groupie dizendo “você está se sentindo bem” e a telefonista dizendo “tem um homem respondendo” e tem um nova voz introduzida nesse ponto e há alguém batendo na porta dizendo “vamos é hora de ir”, certo, então a ideia é de que eles estão vindo para levá-lo para o show porque ele tem que ir e tocar essa noite, e eles entram no quarto e percebem que tem alguma coisa errada, e eles trazem o médico, e “Comfortably Numb” é sobre esse confronto com o médico.

TV: Então o médico põe ele num estado onde ele ir para o palco?
RW: Sim, ele dá uma injeção, de fato isso é muito específico dessa música.

TV: “Just a little pinprick” (Só uma picadinha)?
RW: Sim.

TV: There will be no more aaaaaaaaaaaaaah!”

RW: Certo.

 

[The Show Must go On] [In the Flesh] 

RW: Porque eles não estão interessados em nenhum desses problemas, tudo que eles se interessam é em quantas pessoas tem e quantos ingressos foram vendidos e o show deve continuar, a qualquer custo. Eu quero dizer que eu, pessoalmente, fiz shows onde estava muito deprimido, mas eu também fiz shows quando eu estava extremamente mal, quando você não deveria fazer nenhum tipo de trabalho.
TV: Porque o público estava lá e tudo já estava pronto…

RW: E eles pagaram e se você cancelar um show sem avisar antes, é caro.
TV: Então nosso amigo está de volta aos palcos, mas ele está muito… ele está mal, fascista.

RW: Bem, aqui está você, aqui está a história: Eu me lembro; Montreal 1977, Olympic Stadium, 80.000 pessoas, o último show da turnê de 77, eu, pessoalmente, fiquei tão perturbado durante o show que cuspi em um cara que tava na frente, ele estava gritando e berrando e se divertindo muito, ele se jogava contra a grade e o que ele realmente queria era um bom tumulto, e o que eu queria era fazer um bom show de rock, e eu fiquei tão perturbado no final que eu cuspi nele, o que é uma coisa muito desagradável de se fazer com qualquer pessoa. De qualquer maneira, a ideia é que esse tipo de sentimentos fascistas se desenvolvem do isolamento.

TV: E ele evidencia isso do palco?
RW: Isso é ele avançando sobre o público, todas as minorias na platéia. Por isso a falta de escrúpulos em ‘In the Flesh’,e é para ser sem escrúpulos, isso é o resultado final de muito isolamento e decadência.

[Run like Hell] 

TV: E parece que na faixa ‘Run like Hell’ é ele falando para a platéia…?
RW: Não…

TV: É ele falando para ele mesmo?
RW: Não, ‘Run like in hell’, é para ser ele apenas cantando mais uma música no show. Então isso é apenas uma música, parte da performance, sim…ele continua dopado.
RW: Depois de ‘Run like in hell’ você pode ouvir o público gritando “Pink Floyd”, do lado esquerdo do estéreo, se você estiver ouvindo em “cans?”, e no lado direito ou no meio, você pode ouvir vozes dizendo “hammer” eles estão dizendo ham-mer, ham-mer… Isso é o público do Pink Floyd, se você preferir, virando um comício.

[Waiting for the worms] 

TV: E então vem a faixa ‘Waiting for the worms’, os vermes pra você é a decadência, decadência é iminente.
RW: ‘Waiting for the worms’ em termos teatrais é uma expressão do que está acontecendo no show, quando os efeitos das drogas começam a sumir e os sentimentos reais dele começam a aparecer de novo, e ele é forçado por onde ele está, porque ele tinha arrancado fora seus reais sentimentos. Até você ver o show ou o filme disso você não vai saber porque as pessoas estão gritando ‘Hammer’, mas o martelo, nós usamos o martelo como um símbolo das forças da opressão. E os vermes são a parte pensante. Onde isso vai para a parte de “espera”…

TV: “Esperando os vermes chegarem, esperando para cortar os galhos mortos”.
RW: Sim, antes de “Waiting to cut out the deadwoods” você ouve uma voz através de um alto falante, isso começa com “testando, um, dois” ou alguma coisa parecida, e então diz ” Nós vamos nos reunir fora da prefeitura de Brixton” e isso está descrevendo uma marcha em direção à um comicio de Frente Nacional no Hyde Park. Ou qualquer pessoa, quero dizer, Frente Nacional é o que temos na Inglaterra, mas isso pode ser em qualquer lugar do mundo. Então todos esses gritos e berros… porque você não pode ouví-los, você vê, se você ouvir muito cuidadosamente você deve ouvir “Lambeth Road”, e você deve ouvir “Vauxhall Bridge” e você deve ouvir a palavra “Jewboys”, e, “Nós deveremos encontrar alguns judeus” isso sou apenas eu fazendo um discurso.

[ Stop] [The Trial] [Outside the Wall] 

TV: Quem colocou ele em julgamento?
RW: Ele fez isso.

TV: Ele se colocou em julgamento?
RW: Sim, a ideia é de que os efeitos das drogas acabaram e em ‘Waiting for the Worms’ ele vai e volta para sua realidade, ou sua original personalidade, se você preferir, o que é um tipo de pessoa esperando os vermes chegarem. E está pronto para passar por cima de qualquer um ou de qualquer coisa que entre em seu caminho… isso é uma resposta por ter sido maltratado, e por se sentir muito isolado. Mas no fim de ‘Wating for the worms’ isso se torna muito para ele, a opressão, e ele diz “Stop”. Eu não sei se você consegue ouvir a palavra “stop” no disco, ou talvez você possa, de qualquer maneira, ele fala “stop”, sim, é muito rápido, e então ele diz “Eu quero ir pra casa, tirar esse uniforme e deixar o show”, mas ele diz “Eu estou esperando nessa cela porque tenho que saber, se eu fui o culpado todo esse tempo” e então ele se julga.

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